Na
Europa, a partir da metade do século XVIII, surgem autores que, libertando-se
parcialmente dos limites traçados pela poética neoclássica, apresentam novas
concepções literárias. Em suas obras, eles expressam sentimentos inspirados nas
tradições nacionais, falam de amor e saudade num tom pessoal, realizando uma
poesia mais comunicativa e espontânea do que a neoclássica. Era o nascimento do
Romantismo que foi desenvolvendo-se e enriquecendo-se à medida que se expandia.
Assim, acabou adquirindo características tão variadas que se torna impossível
descrevê-lo em todas as suas dimensões.
No
Brasil, percebe-se o desejo de criação de uma literatura nacional. Assim
representou a primeira tentativa consciente de se produzir literatura
verdadeiramente brasileira. Abandonou aos poucos o tom lusitano, a fim de dar lugar
a um estilo mais próximo da fala brasileira.
Referências históricas
Contexto
sócio-político da época (início do Romantismo no Brasil):
- 1808 - chegada ao Brasil de D. João VI e da família Real
- 1808/1821 - abertura dos portos às nações amigas; instalações de bibliotecas e escolas de nível superior; início da atividade editorial.
- 1822 - Proclamação da Independência. Daí nasce o desejo de uma literatura autenticamente brasileira.
- 1831 - abdicação de D. Pedro I e início do Período de Regência, que vai até 1840 (maioridade de D. Pedro II); fundação da Companhia Dramática Nacional; início da Guerra do Paraguai até 1840).
Características
Podem-se
apontar, no amplo e diversificado movimento romântico, algumas tendências
básicas:
- a exaltação dos sentimentos pessoais, muitas vezes até autopiedade
- exaltação de seu “eu” - subjetivismo
- a expressão dos estados da alma, das paixões e emoções, da fé, dos ideais religiosos
- apóiam-se em valores nacionais e populares
- desejo de liberdade, de igualdade e de reformas sociais; e a valorização da Natureza, que é vista como exemplo de manifestação do poder de Deus e como refúgio acolhedor para o homem que foge dos vícios e corrupções da vida em sociedade
- em alguns casos, fuga da realidade através da arte (direção histórica e nacionalista ou direção idílica e saudosista)
A
linguagem sofreu transformações: em lugar da bem cuidada sintaxe clássica e das
composições de metro fixo, os românticos preferiram uma linguagem mais
coloquial, comunicativa e simples, criando ritmos novos e variando as formas
métricas. Essa liberdade de expressão é uma das características típicas do
Romantismo e constitui um aspecto importante para a evolução da literatura
ocidental. O espírito de renovação lingüística é uma contribuição importante do
Romantismo e foi retomado, no século XX, pelos modernistas.
Na
poesia, distinguem-se três fases, as chamadas Gerações Românticas:
Gerações
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Nomes
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Principais poetas
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Principais temas
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1ª
Geração
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Nacionalista
ou Indianista
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Gonçalves
de Magalhães, Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre
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Exaltação
da natureza, excesso de sentimentalismo, amor indianista, ufanismo (exaltação
da pátria)
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2ª
Geração
|
Ultrarromântica
ou Mal do Século
|
Álvares
de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela
|
Egocentrismo,
sentimentalismo exagerado, morte, tristeza, solidão, tédio, melancolia,
subjetivismo, idealização da mulher.
|
3ª
Geração
|
Condoreira
ou Social
|
Castro
Alves, Sousândrade, Tobias Barreto
|
Sentimentos
liberais e abolicionistas
|
- Indianismo - uma das formas mais significativas do nacionalismo romântico. O índio é um ser idealizado (nobre, valoroso, fiel), apesar disso demonstra a valorização das origens da nacionalidade.
- Mal do Século - voltando-se inteiramente para dentro de si mesmos, esses poetas expressaram em seus versos pessimistas um profundo desencanto pela vida. Muitos marcados pela tuberculose, mal que deu nome à fase
- Condoreirismo - poesia social e libertária que reflete as lutas internas da Segunda metade do reinado de D. Pedro II.
Autores
Gonçalves de Magalhães
Domingos
José Gonçalves de Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 1811. Viveu na Europa,
onde teve contato com a poesia romântica. A obra Suspiros Poéticos e Saudades
foi considerada a obra inaugural do Romantismo no Brasil. O autor procurou
criar e consolidar uma literatura nacional para o país. Morreu em Roma, em
1882. Seu poema de destaque foi Noite tempestuosa do livro Urânias.
Obras:
Suspiros Poéticos e Saudades (1836); Urânias (1862); Cânticos Fúnebres (1864) e
outros
Gonçalves Dias
Primeiro
grande poeta do Romantismo brasileiro. A temática indianista que caracteriza
sua obra apresenta forte colorido e ritmo. Seu grande poema indianista Os
Timbiras ficou incompleto, pois durante o naufrágio em que o poeta morreu
perderam-se também os textos. Além da vertente indianista, também se destaca a
lírica amorosa, mas não apresenta passionalidade. Aqui a mulher é sempre um anjo,
idealizada, numa ótica platônica.
Obras
Principais:
- "I Juca Pirama", "Canção do Tamoio", “Os Timbiras” - sentimento de honra e valentia do índio
- "Leito de folhas verdes", "Se se morre de amor", "Como? És tu?", "Ainda uma vez - adeus!", "Seus olhos" - sentimento amoroso
- "Canção do Exílio" - solidão, exílio, amor à pátria, retomada por muitos modernistas
- "O mar", "A noite", "A tarde" - poesias impregnadas de religiosidade sobre a majestade da natureza
- Livros - Primeiros Cantos (1846), Segundos Cantos (1848), Sextilhas de Frei Antão (1848), Últimos Cantos (1851), Os Timbiras, Cantos (1857).
"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá." |
||
--Canção
do Exílio
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||
"Por onde quer que fordes de fugida
Vai o fero Itajuba perseguir-vos Por água ou terra, ou campos, ou florestas; Tremei!..." Os Timbiras "Eu vi o brioso no largo terreiro, Cantar prisioneiro Seu canto de morte, que nunca esqueci: Valente como era, chorou sem ter pejo; Parece que o vejo, Que o tenho nest'hora diante de mi." |
||
(I-Juca
Pirama)
|
||
Álvares de Azevedo
Poeta que
melhor representou a estética ultra-romântica. Tendência aos aspectos mórbidos
e depressivos da existência, degeneração dos sentimentos, decadentismo e até
satanismo. A escolha vocabular reflete essa tendência: "pálpebra
demente", "matéria impura", "fúnebre clarão",
"boca maldita", entre outros. Esta linguagem, acrescida de termos
científicos, voltará no Simbolismo com Augusto dos Anjos.
Morreu
tuberculoso aos 20 anos de idade, não sendo reunida em livro sua obra.
Obras
Principais:
- "Liras dos vinte anos" - livro-síntese dessa geração pois revela a força lírica e a v ironia romântico-macabra
- "Macário" - composição livre, meio diálogo, meio narração
- "O Conde Lopo"
- "Poema do Frade"
- "Pedro Ivo" (poemetos)
- "Noite na Taverna" - prosa narrativa fala da boemia estudantil da época, que era uma forma de protesto e fuga
"Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã... A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã!" " Quando falo contigo, no meu peito esquece-me esta dor que me consome: Talvez corre o prazer nas fibras d'alma: E eu ouso ainda murmurar teu nome!" |
||
(Lira
dos Vinte Anos )
|
||
"Pois
bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto,
podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma
lembrança do passado."
|
||
--Noite
na Taverna
|
||
"A
mulher recuava... Recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos
dela... Ela deu um grito, e caiu-lhe das mãos. Era horrível de ver-se. O moço
tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-os no peito, e caiu sobre ela. Dois
gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo…"
|
||
--Noite
na Taverna
|
||
"Mais
claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de
dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas
que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas
o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o
amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa,
que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é
mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a
dela—eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma
chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina, morena, branca,
loira, de cabelos castanhos ou negros.
Tenho-as
visto que fazem empalidecer—e meu peito parece sufocar meus lábios se gelam,
minha mão se esfria…"
|
||
--Macário
|
||
"Esse
amor foi uma desgraça. Foi uma sina terrível. Ó meu pai! ó minha segunda mãe!
ó meus anjos! meu céu! minhas campinas! É tão triste morrer!"
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(Macário)
|
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Junqueira Freire
Luís
Junqueira Freire nasceu em 1832, em Salvador. Formou-se professor aos 20 anos.
Morreu em 1855, logo após a publicação das Inspirações do Claustro. Seu poema
em destaque foi Meu filho no claustro.
Obras
Principais:
- Inspirações do claustro (1855)
- Contradições poéticas (data incerta)
Casimiro de Abreu
Poeta que
representa a sensibilidade brasileira espontânea. Levou vida boemia e morreu de
tuberculose Sua poesia não foi muito inovadora, sendo considerado mais ingênuo
dos românticos. Conhecido como "poeta da infância", fala muito da
inocência perdida Trabalha também temas do chamado “romantismo descabelado”:
exílio e lirismo amoroso.
Obras
Principais:
- Camões e o Jau (teatro)
- Carolina (romance)
- Camila (memórias)
- A Virgem Loura (prosa)
- Primaveras (poesia)
"Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida, da minha infância querida Que os anos não trazem mais!" |
||
(Meus
oito anos)
|
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Fagundes Varela
Poeta
romântico boêmio inspirado pelo byronismo. A morte marca sua vida pessoal com a
perda do filho de três meses e da ex-esposa. Por sua amizade com Castro Alves,
fez a ponte da poesia pessimista à poesia social. Falece, alcoólatra e
mentalmente desequilibrado tornando-se o protótipo do poeta maldito brasileiro.
Obras
Principais:
- Noturnas (1861), O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou Evangelho na Selva (1875), Diário de Lázaro (1880), Cantos Religiosos (1878) - poesias
- Ruínas da Glória, Ester, Ina, Cora - prosa
"Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústia conduzia O ramo da esperança. - Eras a estrela Que entre as névoas do inverno cintilava Apontando o caminho ao pergueiro." |
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(Cântico
do Calvário)
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Castro Alves
Porta-voz
das ânsias coletivas tem na poesia abolicionista sua melhor realização na linha
social ("Navio Negreiro" e "Vozes d'África). Em suas obras,
atribui ao poeta a missão de denunciar as injustiças sociais e de clamar pela
liberdade ("Adeus, meu canto").
Esse tipo
de poesia se realiza num estilo vibrante, em que predominam as comparações,
metáforas, antíteses, hipérboles, apóstrofes, empregadas quase sempre em função
de elementos grandiosos da natureza, que sugerem imensidão, força, majestade,
como: montanhas, cordilheiras, oceanos, tempestades, furacões, astros,
cachoeiras, configurando assim o estilo chamado Condoreirismo.
Sua
poesia amorosa é bem mais sensual do que se fazia na época. Nela, a mulher,
diante das vagas idealizações ultra-românticas, aparece em toda sua beleza
física e envolvida por um clima de erotismo e paixão.
Como a
maioria dos poetas românticos morre cedo, aos 24 anos de idade.
Obras
Principais:
- "Espumas Flutuantes" (1870)
- "A Cachoeira de Paulo Afonso" (1876)
- "Os escravos" (1883)
- além das poesias escreveu para o teatro “Gonzaga ou a Revolução de Minas” (1876)
"Eras um sono dantesco... O tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho, Em sangue a se banhar, Tinir de ferros... Estalar do açoite... Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar" |
||
(Os
Escravos)
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Sinopse
Marco
inicial = publicação do livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de
Magalhães (1836). esta obra promoveu, de modo sistemático, os ideais românticos
(nacionalismo + religiosidade) e o repúdio aos padrões clássicos externos
(mitologia pagã).
Marco
final = publicação de O Mulato (Aluísio Azevedo) e de Memórias Póstumas de Brás Cubas
(M. de Assis) em 1881.
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