quinta-feira, 27 de março de 2014

A Moça Tecelã, de Marina Colasanti

Fonte: http://youtu.be/CNDyqGVrEiI

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3_SP6v2q1vHDB-OVPJhB-Zrs6MPHjcaVALjEXd6nWaEPeABGncVojDzXj_HsMqZTCvbE7DLtbr7q69lMFrO5djhFnYQro8jxSr0YnGIhH4vPrCedhUcURKw6u4IUipndAUO_hEdtSPRML/s400/a_moca_tecela.jpg

A Moça Tecelã


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.
Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
- Uma casa melhor é necessária, -disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
- É para que ninguém saiba do tapete, -- disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu:
- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

 
COLASANTI, Marina. Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento. 6. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.

A história narra o caso da moça tecelã que usava a tecelagem para sentir-se feliz, mas de tanto tecer com o passar do tempo, ela sente a necessidade de ter um companheiro para não ficar sozinha. Então ela usa a tecelagem para idealizar um perfil do rapaz ideal para si mesmo.
Enfim, a jovem que tecia viveu com seu amor tempos de felicidade até ele descobrir o poder de tecer.
 

quarta-feira, 26 de março de 2014

O texto dissertativo-argumentativo - modelo ENEM


PRIMEIRO PASSO
: entenda bem o tema da redação.

·                     Faça perguntas relacionadas ao assunto.
·                     Faça um “brainstorming”, mas sozinho: coloque seu conhecimento de mundo em ação. 


·                     Pense no problema relacionado a esse tema: toda proposta de redação do ENEM terá um problema que precisa ser solucionado. Pense nesse problema, em suas causas e em sua solução
·                     É interessante responder a perguntas como:
>> Qual é o problema?
>> Por que é um problema?
>> Quais as causas desse problema?
>> Qual a solução para esse problema?
>> Por que essa solução deveria ser colocada em prática?
>> Como essa solução resolveria o problema?

Vamos usar como exemplo uma redação sobre o seguinte tema:
MOBILIDADE URBANA


 >>> Comece fazendo perguntas: 
·                     O que é mobilidade urbana? 
·                     Quando se pensa em mobilidade urbana no Brasil, quais problemas podem ser apontados?
·                     Quais as causas desses problemas? 
·                     Como fazer para resolver esses problemas?
·                     Como essa solução resolveria os problemas?

É nesse momento que se faz o “brainstorming”


>> O que é mobilidade urbana?
Vou colocar alguns tópicos que me ajudarão a formar a ideia completa:
·                     Infraestrutura das cidades 
·                     Meios de transporte
·                     Transporte coletivo
·                     Deslocamento de pessoas

>> Quando se pensa em mobilidade urbana no Brasil, quais problemas podem ser apontados?
A questão da mobilidade urbana no Brasil é um problema. Por quê?
Em tópicos:
·                     Excesso de veículos
·                     Congestionamentos
·                     Transporte coletivo precário
·                     Atrasos
·                     Estresse
·                     Poluição
·                     Acidentes

>> Quais as causas desse problema?
Novamente vou colocar alguns tópicos:
·                     Falta de planejamento urbano
·                     Pouco espaço/incentivo para transporte alternativo, como bicicletas.
·                     Pouco investimento em transporte coletivo eficaz.

>> Como fazer para resolver esse problema?
Vou listar algumas possibilidades:
·                     Investimento em infraestrutura: reestruturação das vias públicas, construção/ampliação de ciclovias.
·                     Incentivo ao transporte alternativo, como bicicletas.
·                     Investimento em transporte coletivo mais eficaz.

>> Como essa solução resolveria o problema?
Transporte coletivo eficaz faz com que o indivíduo possa deixar o carro em casa para se deslocar pela cidade.

Se houver condições estruturais e segurança para o uso de bicicletas, por exemplo, o incentivo a esse meio de transporte alternativo poderá surtir algum efeito. 

OBSERVAÇÃO: Quanto mais criativa a solução, maiores as chances de a redação ser bem avaliada. Dessa forma, é importante pensar em uma proposta inovadora, que não seja óbvia demais. Esse é o desafio!

SEGUNDO PASSO: vamos construir a redação: 

INTRODUÇÃO: (primeiro parágrafo da redação)
  •  Introdução deve ter o seguinte:
      - Apresentação do tema
      - O problema
      - A tese (é o que se pretende defender no texto)

Vejamos o exemplo:

>>> O tema é mobilidade urbana: vou colocar uma definição e explicar por que se trata de um problema.

(veja que já pensei sobre isso quando estava “entendendo o tema”)

  • A tese é o que eu pretendo defender, é o objetivo do meu texto. Como estou fazendo uma redação “modelo ENEM”, vou apontar aqui para a solução do problema.

Atenção:  
Não vou abordar a proposta de intervenção no primeiro parágrafo do texto, mas vou apontá-la como tese, como objetivo da redação. No final do texto vou desenvolver essa proposta e estabelecer uma ligação clara da conclusão com a introdução.
A ideia é a seguinte:
O tema da redação é um problema e meu objetivo é resolvê-lo.
(objetivo da redação = tese = solução para o problema). 
Eu proponho uma solução, desenvolvo o texto explicando por que esse problema precisa ser solucionado e, no final, desenvolvo essa proposta e mostro como ela resolveria o problema.

>>> Voltando à redação sobre mobilidade urbana:

TESE 
  

 E preciso criar condições de o brasileiro deixar o carro em casa para se locomover pela cidade.
  •   Vejamos, então, o primeiro parágrafo inteiro:




  •  Observe que o parágrafo de introdução contém a apresentação do assunto, o problema e a tese.

DESENVOLVIMENTO: (no mínimo dois parágrafos)
·     É importante planejar o desenvolvimento do texto.  Pense na relação entre os argumentos: 
 - A ideia será somar os argumentos?
- A ideia será contrapor argumentos: aspectos negativos e positivos, por exemplo? 
- Os argumentos serão as causas e as consequências do problema?

·         A relação entre os argumentos dependerá do tema. Há aqueles que permitem contraposição de ideias, outros não.

   Vamos aplicar isso ao exemplo:
  • Em relação ao tema “mobilidade urbana”, escolhi somar ideias que defendem minha tese:

TESE 

 E preciso criar condições de o brasileiro deixar o carro em casa para se locomover pela cidade.
  • Para selecionar os argumentos, é possível fazer o seguinte raciocínio:

Eu pretendo defender a tese tal por causa disso (1) e por causa disso (2).
Disso (1) = argumento 1
Disso (2) = argumento 2

  • Faço, então, o seguinte:

Pretendo defender a ideia de que é preciso criar condições de o brasileiro deixar o carro em casa para se locomover pela cidade por causa DISSO (1) e por causa DISSO (2).
DISSO (1) = falta de infraestrutura + excesso de veículos = congestionamentos – atrasos – poluição – problemas de saúde.(argumento 1)
DISSO (2) = falta de transporte coletivo eficaz. (argumento 2)
  • Vamos começar pelo argumento 1: 

ARGUMENTO 1 = falta de infraestrutura + excesso de veículos = congestionamentos – atrasos – poluição – problemas de saúde.
  • Vou fazer um tópico frasal, isto é, uma frase que sintetiza meu argumento:

  • Veja que o foco principal do meu argumento é o excesso de veículos
  • Agora, vou desenvolver o tópico frasal e transformar as ideias em um texto coerente e coeso:


  • Para fechar o parágrafo, vou relacioná-lo à tese, ao que estou defendendo em meu texto:


Observação: você pode optar por expressões como "dessa forma", "nesse sentido", "assim", "portanto" etc para iniciar a frase que irá relacionar a tese ao argumento.
  • Agora vamos desenvolver o argumento 2:

ARGUMENTO 2 = falta de transporte coletivo eficaz.
  • Novamente vou fazer um tópico frasal, isto é, uma frase que sintetiza meu argumento:

  •  Veja que o foco principal desse meu argumento é a ineficiência do transporte coletivo.
  • Agora, vou desenvolver o tópico frasal e transformar as ideias em um texto coerente e coeso:

  • Para fechar o parágrafo, vamos relacioná-lo à tese, ao que estou defendendo em meu texto:


Observação: veja que a expressão "portanto" foi usada no início da frase que relaciona a tese a esse segundo argumento.
  • É importante relacionar meus argumentos. Veja que eu estou somando ideias, por isso devo inserir uma expressão que explicite essa soma. No segundo parágrafo, posso iniciar o argumento com uma expressão como “além disso”:



CONCLUSÃO: (último parágrafo)

·                     Volte ao tema/problema. 
·                     Apresente uma solução para o problema (proposta de intervenção).
·                     Reafirme a tese apresentada na introdução.

Vejamos o exemplo:
  • No último parágrafo eu volto ao problema da mobilidade urbana:


  •  Desenvolvimento da solução para o problema (proposta de intervenção) 

  •    Reafirmação da tese:



Vejamos, agora, a redação completa:
   
Fonte: http://www.gramatiquice.com.br/2013/09/voudeixar-aqui-mais-uma-pequena-dica.html