sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Interpretação de textos com gabarito - salvando minha coletânea aos colegas

Um domingo, Paulo Mendes Campos (crônica) Diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, eu nada tinha a fazer, nem a pensar, nem a sofrer. Era domingo. Reconhecia as coisas, a cor da água, que parece olho baço, a cor da relva, a cor do eucalipto, a cor do firmamento, que era uma cor de líquido azul. Estava sentado com os olhos abertos, num banco de pedra. Se um pardal esvoaçava, virava o rosto para vê-lo e amá-lo melhor. Acompanhava a marcha comercial das formigas. Sorria às crianças que passavam com amas pretas vestidas de branco. Um peixe resvalou à flor da água: do céu baixou um raio de sol e feriu o dorso do animal; o reflexo veio em linha reta até meus olhos, e inventei, então, a teoria dos triângulos: há triângulos radiosos em todos os espaços. Sol, peixe, homem. Pois nunca ninguém está só diante duma coisa, existindo sempre a testemunha que, participando de nosso ovaristo [diálogo entre esposos ou amantes], completa o nosso diálogo. Tudo no mundo é trindade. É bom que um homem, vez por outra deixe o litoral misterioso e grande, querendo contemplar uma lagoa. O mar, este é terrível e resiste à nossa sede com seu sal profundo. Sim, são belas as palavras do mar: hipocampo, sargaço, calmaria. Oceanus. No entanto, uma lagoa, muda e fechada, compreende as nossas pequeninas desventuras, o efêmero que nos fere. Nenhum poeta seria tonto a tal ponto de escrever ao lago uma epopeia, uma saga. Nele podemos esquecer apenas os nossos naufrágios.Do lugar em que estava, o Cristo se erguia de perfil. As montanhas formam um alcantilado que os aviões de São Paulo cruzam com uma elegância moderna. Amo essas montanhas uma a uma, com exceção apenas do Morro do Cantagalo, cujo volume é desagradável e pesado. O domingo se aquietara, quando passou zunindo um automóvel vermelho. O ar continha cubos translúcidos e dentro deles revoavam urubus. São as aves mais feias do céu mas têm um belo voo alçado e tranquilo. Um pequeno barco a vela seguia o caminho invisível do vento. Depois, surgiram outros barcos, todos brancos e silenciosos. Acrescento que nada mais bonito existe do que um barco a vela. E havia também as casas dos pobres do outro lado, construções admiráveis, no ar. O milagre da pobreza é sempre o mais novo e o mais cálido de todos os milagres. Todas as palavras já foram ditas sobre a miséria mas a alma dos ricos é cheia de doenças. O sol foi acabando. Levantei-me do banco e fui embora. Pensando: há domingos que cheiram a claustros brunidos pelo esforço dos noviços. Aquele, entretanto, tinha um perfume de outono. Fonte:http://classico.velhosamigos.com.br/AutoresCelebres/PauloMendesCampos/paulomendescampos.html 1 .Diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, o autor se Poe a contemplar a paisagem levado por: a) um domingo quieto e tranquilo. b) uma despreocupação material e mental. c) uma necessidade interior. d) uma curiosidade indivisível. 2. O que fez o autor “descobrir” a cor da água, a cor da relva, a cor do eucalipto, a cor do firmamento, foi: a) a lagoa. b) a necessidade de deixar o litoral. c) ser um dia em que não se trabalha. d) estar de olhos abertos, sentado num banco de pedra. 3. O autor, neste domingo, diante da Lagoa, Rodrigo de Freitas, experimenta: a) tristeza e melancolia. b) entusiasmo e alegria. c) tranquilidade e admiração. d) felicidade completa. 4. Quando o P.M.C. afirma que “o mar, este é terrível e resiste a nossa sede com seu sal profundo...” pretende dizer que: a) o mar é inatingível à curiosidade do homem. b) a água do mar é muito salgada. c) o mar é terrível e nos trai. d) o mar já não o atrai mais, por residir ele numa praia 5. Você deve ter reparado que o autor “estava sentado com os olhos abertos, num banco de pedra” e que ele “se levantou do banco e foi embora”. Podemos deduzir: a) o autor se aborreceu b) o dia já havia transcorrido, passado. c) era noite alta. d) não havia mais gente no local. 6. A presença de um automóvel que passa zunindo e de um pequeno barco a vela que segue o caminho invisível do vento, oferece-nos: a) a presença de elementos indesejáveis à natureza. b) a presença da civilização preocupada. c) simples desvio de atenção, provocado pelo carro. d) uma antítese que marca a oposição entre a cidade agitada e a lagoa tranquila. 7. Os aspectos que predominam na paisagem descrita são: a) a calma, a indolência, o vazio. b) o brilho, a cor, o perfume. c) a felicidade, o som, o barulho. d) a ausência humana,o domingo, a calma. 8. Quando o cronista afirma que “aquele domingo tinha um perfume de outono”, quis sugerir que: a) estávamos no outono. b) o homem descobre a felicidade íntima no silêncio da vida. c) o domingo parecia ambiente de claustro. d) é no outono que a natureza se torna mais conveniente para a contemplação. 9. A expressão que confirma a resposta ao item anterior é: a) “o mar resiste à nossa sede com seu sal profundo”. b) “nada mais bonito existe do que um barco a vela”. c) “o domingo se aquietara”. d) “uma lagoa, muda e fechada, compreende nossas pequeninas desventuras”. 10. A lagoa representa, para o cronista: a) um meio de esquecer as tristezas da vida. b) um elemento que o poeta conta com grande valor e solenidade. c) um ponto de alívio na vida agitada do poeta. d) um elemento de conversão do autor, que procura uma vocação, para ingressar no claustro de um convento. Paulo Mendes Campos, poeta e prosador, nasceu em Belo Horizonte em 1922 e morreu no Rio de Janeiro em 1991. "Pertenceu à geração de cronistas que elevaram o gênero a um nível de excelência" (Affonso Romano de Sant'Anna. GABARITO: Um domingo, Paulo Mendes Campos (crônica): 1B; 2D; 3C; 4A; 5B; 6D; 7B; 8B; 9C; 10A.

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