Parabéns pela belíssima voz!
ORAÇÃO
DO MILHO, de Cora Carolina
Senhor,
nada valho.
Sou
a planta humilde dos quintais pequenos
e
das lavouras pobres.
Meu
grão, perdido por acaso,
nasce
e cresce na terra descuidada.
Ponho
folhas e haste, e, se me ajudardes, Senhor,
mesmo
planta de acaso, solitária,
dou
espigas e devolvo em muitos grãos
o
grão perdido inicial, salvo por milagre,
que
a terra fecundou.
Sou
a planta primária da lavoura.
Não
me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
de
mim não se faz o pão alvo universal.
O
justo não me consagrou Pão de Vida
nem
lugar me foi dado nos altares.
Sou
apenas o alimento forte e substancial
dos
que trabalham a terra,
alimento
de rústicos e animais de jugo.
Quando
os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados
de rosas e de espigas,
e
os hebreus iam em longas caravanas
buscar
na terra do Egito o trigo dos faraós,
quando
Rute respigava cantando nas searas de Booz
e
Jesus abençoava os trigais maduros,
eu
era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui
o angu pesado e constante do escravo
na
exaustão do eito.
Sou
a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou
a farinha econômica do proprietário, sou a polenta
do
imigrante e a amiga dos que começam a vida
em
terra estranha.
Alimento
de porcos e do triste mu de carga,
o
que me planta não levanta comércio,
nem
avantaja dinheiro.
Sou
apenas a fartura generosa
e
despreocupada dos paióis.
Sou
o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou
o canto festivo dos galos
na
glória do dia que amanhece.
Sou
o cacarejo alegre das poedeiras
à
volta dos ninhos.
Sou
a pobreza vegetal agradecida a vós,
Senhor,
que
me fizestes necessário e humilde.
Sou
o milho!
Esse
poema me soa como a própria confissão de Aninha – não a meia confissão,
como consta de Vintém de Cobre – Meias confissões de Aninha, livro que viria
depois, mas uma confissão de corpo e alma inteiros, o milho se revelando através
dos versos de Cora e ela se deixando perceber através dos versos do milho, ele
e Cora em uma identificação perfeita, a grandeza explodindo através da
humildade. Quando irrompe o verso final – “Sou o milho!”, é impossível não
fazer imediata relação com o poema Minha Cidade, que termina assim: “Eu sou
aquela menina feia da ponte da Lapa./Eu sou Aninha.”. Milho que, assim como
Cora, coloca-se de forma humilde, mas doa-se com espontaneidade.
Através de seus versos, o passado revela-se contundente: as
vivências da meninice, com todas as dificuldades de ordem material e emocional,
são marcantes, são quase fotografias do real, tal a sinceridade e a
autenticidade que emana de seus versos, toda sua humildade e simplicidade
perpassadas por uma compreensão da vida e uma sabedoria advindas da experiência
e da maturidade de uma pessoa extremamente sensível e atenta ao mundo que a
cerca. Em Cora, a dimensão individual e a social encontram-se em permanente
intercâmbio, em um casamento perfeito e harmônico, sendo ao mesmo tempo causa
e conseqüência naturais uma da outra, sem entrarem em choque. E apesar da
constante consciência de suas lutas e dificuldades, Cora trafega com
naturalidade entre a realidade e o sonho, as dificuldades e a busca, em suas
dimensões externa e interna.
Fonte: http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/esther_ensaios.htm
Por: Maria
Esther Torinho é poeta, cronista e contista, graduada em Letras, Psicóloga,
Orientadora de Informática Educativa.
Olá Geisa,
ResponderExcluirParabéns pelo blog e sobretudo pela matéria sobre a nossa Cora Coralina. Surpreendeu-me apenas ter ouvido a minha voz no vídeo postado com o poema Oração do Milho, sem qualquer referência ao meu vídeo colocado há muito tempo no You Tube. Confira, por favor.
Convido-a para visitar também o meu blog: www.quincasblog.wordpress.com
Cordialmente,
Lauro Moreira
Olá Lauro!
ResponderExcluirObrigada pela visita e convite! Eu tenho certeza que aprenderei muito com você. Parabéns pela voz!
Já postei as devidas referências. Desculpe-me, mas tenho muito que aprender ainda. Não sei nem montar vídeos, apesar de incentivar meus alunos nessa arte. Eu ainda chego lá! Rsrsrs...
Se quiser me apoiar com outras obras, agradeço desde já.
Abraços!
Geisa